Evento realizado pelo mandato Carlos Neder debate a conjuntura política e o papel dos movimento sociais

Reunião ampliada do conselho político do mandato contou com a presença de mais de 80 pessoas para debater o papel das esquerdas

Reunião ampliada do conselho político do mandato contou com a presença de mais de 80 pessoas para debater o papel das esquerdas

A saída da esquerda hoje é construir uma coisa nova, que olhe menos para a Europa e mais para a nossa realidade, para o vizinho do bairro. A alternativa é apontada pelo professor Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, que participou do debate sobre a conjuntura política e o papel das esquerdas, promovido pelo mandato Carlos Neder nesta segunda-feira (12/09). De acordo com o professor, a expressão de ordem é “garantir unidade na pluralidade”, algo como o que foi a Frente Ampla do Uruguai, que agregue movimentos, indivíduos e partidos.

Para Fornazieri, a solução hoje para a esquerda brasileira passa pela criação de um sistema que combine uma forma de organização vertical com a participação horizontal. “Sofremos de uma crise de organização partidária. O que acontece é que os partidos tendem a esquecer a participação”, ressalta Fornazieri, lembrando que a partir da chegada do PT ao governo federal, em 2003, o partido começou a se afastar gradativamente dos movimentos sociais e populares. “Começaram a andar de carro blindado, fecharam as portas do diretório, impedindo o acesso do povo aos dirigentes, tornou-se manipulatório. Com isso acabou aos poucos perdendo o contato com as bases sociais”, analisa o professor. Ele cita o livro Sociologia dos Partidos Políticos como literatura fundamental para todos que fazem política. “No livro, Robert Michels fala que o sentido dos partidos é se oligarquizarem e se afastarem das massas. Fazem o discurso externo, mas usam as massas”, relata.

Apesar de reconhecer avanços sociais conquistados no Governo Lula, Fornazieri ressalta as escolhas erradas da gestão, que apostou na inclusão das pessoas por meio do consumo e na realização de políticas sociais de caráter compensatório ou estruturantes, mas que não foram reformas estruturais de fato, capazes de resolver os problemas no cerne e mudar estruturalmente as condições da pobreza e da iniquidade.

Aldo Fornazieri critica duramente as práticas utilizadas pelo partido ao chegar ao governo. “O PT não tem ideologia republicana, se corrompeu. Partido que se corrompe vende princípios, passa a bebericar com aqueles que estão do outro lado do balcão. O partido passou a usufruir das benesses do poder, a realizar eventos em hotéis de elite em São Paulo, a beber vinhos mais caros… E um partido que adota esse caminho não é o partido da transformação social”, assevera. Ele entende que a corrupção é o principal mal da sociedade. Nesse sentido, defende que o PT precisa fazer uma séria autocrítica sob pena de não haver a renovação necessária para a mudança. “É preciso se reinventar e não tem outro caminho para as esquerdas”, encerra Fornazieri.

Cientista político Aldo Fornaziere.

Cientista político Aldo Fornaziere

Tempo de renovação

O golpe parlamentar foi usado como ponto de partida para a análise apresentada por Carlos Henrique Árabe, secretário Nacional de Formação do PT. “Devemos partir de uma questão que não pode ser contornada: que existe um golpe no Brasil, uma ruptura da ordem democrática promovida pelas classes dominantes”. Nesse sentido, Árabe elenca três fatores elementares para entender a atual conjuntura e pensar em alternativas para a mudança. “A primeira questão tem a ver com o que se entende por democracia”, salienta, lembrando que, “felizmente, o PT é plural e público”. “Dentro da questão democrática tem um tema que é central e que, desde 2005, nos caracteriza como campo político [Mensagem ao Partido]: a luta contra o financiamento empresarial e a visão de que esse sistema leva a privilégios e a corrupção”, explica o dirigente.

Carlos Henrique Árabe

Carlos Henrique Árabe ” Existe um golpe no Brasil”

Conforme Árabe, o segundo item a ser enfrentado é o combate ao neoliberalismo. “Enquanto socialista não é possível a defesa de quem explora. Muitas vezes respondemos com uma ideia de revolução, mas temos de ter respostas para o aqui e agora. Temos de ter uma resposta para a crise econômica, para quem defende que quanto menos público melhor, temos de nos manter contra essa visão reducionista do papel do Estado”, declara. Analisando a política econômica adotada pelo governo petista, Árabe cita que fica como lição central para o partido a ideia de que um governo de esquerda não pode adotar uma política econômica de direita. “Não pode ser um governo de entrega para as empresas decidirem em nome da sociedade. Esse foi um dos equívocos do governo Dilma”, analisa.

Por fim, Árabe entende a necessidade de se refletir sobre o PT como movimento de esquerda. “Ao colocar a questão do partido não estou pensando num partido único, mas numa questão histórica que parece estar mudando. Em 2005 a nossa bandeira era refundar o PT. Ela continua totalmente atual, não temos o que recuar nisso. Mas será preciso promover pelo menos duas mudanças, pois existe uma nova realidade de esquerda, que não se configura como um partido, mas funciona como”. Ele cita como exemplos o movimento de consulta popular e, em alguma medida, também o MTST, que não se assume como partido, mas tem força como tal. Outro importante elemento no campo das esquerdas é o protagonismo dos jovens e das mulheres que estão à frente das manifestações. “Nossa função hoje no PT é lutar para que sejamos parte disso. E a esquerda que surgir desse processo é o tipo de refundação que vamos ter”, finaliza.

Igualdade nas relações

Para Rita Quadros, militante feminista e LGBT, para haver uma verdadeira mudança é preciso revisar especialmente a postura machista e racista ainda predominante na sociedade, inclusive dentro do partido e nas instituições de poder. “Mais do que combater a elite é combater o tipo de pensamento que vai sendo reproduzido no cotidiano”, ressalta. De acordo com ela, os desafios colocados aos movimentos sociais, e para a retomada do processo de reconstrução da democracia, vão ao encontro da construção de estruturas que avancem no sentido da igualdade de fato entre homens e mulheres. “Para a discussão sobre os movimentos sociais ter sentido é preciso discutir a importância deles a partir do lugar deles”, sugere Rita, questionando onde estariam as mulheres, os índios, os negros e os gays nesse discurso de construção da esquerda apresentado pelos palestrantes que a antecederam.

Rita Quadros

Rita Quadros

Na opinião de Rita, as mulheres historicamente são silenciadas, são vistas como bruxas más ou então sexualizadas. “Esse é um desafio que a juventude tem de enfrentar: as questões machistas que atravessam ainda as nossas relações, em que ou o desprezo ou a desqualificação são valorizados e a violência é justificada”, lamenta. Ela lembra que o próprio PT já foi uma referência nesse enfrentamento, mas que acaba hoje reproduzindo esse machismo. Para Rita, ao se pretender uma refundação do partido, tais questões devem também estar presentes. “Se não estabelecer um canal de diálogo, ter a coragem de ouvir todas as críticas, está fadado ao fracasso”, adverte.

 

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