Em debate promovido pelo mandato Carlos Neder, a deputada federal Luiza Erundina fala sobre a atual conjuntura política e indica caminhos para vencer o retrocesso

 

por Luciene Leszczynski

É uma característica do mandato do deputado estadual Carlos Neder (PT) promover regularmente encontros com a participação de especialistas ou lideranças políticas para debater temas importantes da atualidade. Na segunda-feira (23/07), foi a vez da participação da deputada federal Luiza Erundina (PSOL), com quem Neder mantém grande proximidade desde quando foi secretário municipal de saúde na gestão da então petista na prefeitura da capital paulista. No encontro, realizado no Sindicato dos Bancários, com a participação de quase uma centena de pessoas, o tema em debate foi a conjuntura política e como enfrentar as indefinições do atual cenário eleitoral.

Apesar da severidade do tema, um clima descontraído e de reencontro marcou o evento, que conseguiu reunir militantes do PT e do PSOL e, sobretudo, simpatizantes da atuação comum de Erundina e Neder.

Para o deputado Carlos Neder, nunca mais houve um governo de esquerda em São Paulo como o experimentado pela gestão Erundina. “Naquela época eu não tinha a noção de que ali nós já estávamos no cume. Aquele foi a experiência mais avançada de um governo popular, democrático, de esquerda em São Paulo e que não se sujeitou ao modo tradicional de fazer política”, ressaltou. “Sendo do PT eu estou afirmando aqui que os dois governos que vieram depois não chegam aos pés do primeiro governo do PT em São Paulo”, acrescentou ao lembrar do compromisso de classe, da organização dos trabalhadores, do protagonismo político dado às mulheres e da pluralidade efetiva nas decisões. “Trajetória posteriormente honrada por Luiza Erundina como deputada federal”, destacou.

A proximidade com a população e o estímulo à democracia direta e participativa são alguns dos pontos em comum defendidos e praticados por Neder e Erundina

De acordo com Erundina, a proximidade com a população e o estímulo à democracia direta e participativa efetivamente promovida durante a sua gestão na prefeitura foi a chave do sucesso daquele governo. “O nosso governo só deu certo não é porque nós estávamos lá, mas sim porque o povo estava lá. O povo participava das decisões estratégicas mais importantes, o povo exercitava a democracia direta, a democracia participativa. Nós acreditávamos no povo e não em vereador”, disse, criticando a prática de compra de votos no legislativo. “Governamos quatro anos com minoria na Câmara, porque pra ter maioria lá nós teríamos nos prostituído e isso a direita faz melhor estando há 500 anos no poder. Porque eles não têm escrúpulos. É mais fácil governar sem ter escrúpulo, comprar vereador, comprar deputado, comprar os raios que o partam, mas para fazer isso nós não podemos nos taxar de fazer diferente. Nós fazemos pior do que eles se a gente transigir no nível que eles transigem. É melhor não dar certo do que dar certo transigindo eticamente”, asseverou, queixando-se dos governos do PT por não terem acreditado “até a raiz do cabelo” na força e no poder do povo. É o povo que garante governabilidade, não é voto de deputado e senador em troca daquilo que não deve ser trocado”, completou.

Erundina, porém, saiu em defesa do ex-presidente Lula e criticou sua prisão. “Não acredito que Lula e alguns companheiros que estiveram com ele abriram mão de certos princípios simplesmente pensando em ficar rico. Eu não acredito que alguém que deu a sua juventude, que deu o melhor de sua existência, que deu a sua liberdade, que viveu no exílio, possa transigir eticamente pensando em dinheiro”, refletiu.

Para Erundina, o momento é de tristeza devido à prisão de Lula. “Em qualquer sociedade civilizada do mundo não se faz isso que eles estão fazendo com o Lula”, disse.

Na opinião de Erundina a principal característica da atual conjuntura é a incerteza com relação a indefinição da candidatura ou não de Lula ou ainda diante da possibilidade de ele indicar outro nome. Erundina criticou ainda a pretensão da candidatura de Ciro Gomes em se constituir uma via à esquerda.  “Não me digam que o Ciro Gomes é de esquerda, porque não é. Ele queria estar com o centrão e o centrão é que não quis, porque tinha um parceiro mais confiável do que Ciro, que é o Geraldo Alckmin”, alertou.

Para vencer a escuridão e encontrar a saída nesse momento, Erundina recomenda “esperançar”, lembrando dos ensinamentos de Paulo Freire. “A nossa democracia está ameaçada, o estado democrático de direito está sob risco e vencer este momento trágico da vida política do nosso país vai depender da nossa força, da nossa generosidade e solidariedade. Não podemos nos dar o direito de ceder a tentação do desânimo. Eu luto contra a tentação do desespero e do desalento, porque são [pensamentos] individuais, que nos colocam no particular, nos voltam ao próprio umbigo. Por isso que é reacionário, é conservador, porque nos desmobiliza. Pelo contrário, precisamos contagiar com o vírus da esperança, do verbo esperançar, como Paulo Freire dizia, que é o agir, é contagiar o outro com a expectativa de construir algo novo daqui para frente. E as eleições são o momento para isso. A gente tem de fazer a nossa parte, exigir a libertação do Lula, não podemos desistir desse grito Lula livre!”, encerrou.