É quase inacreditável o imenso desconforto que 30 garotas e garotos conseguiram criar ao poderoso e inatingível imperador Geraldo, o inimputável. Ocuparam a tradicional escola pública estadual Fernão Dias, no agradável bairro de Pinheiros, e de lá não saíram.Por essa o “franciscano” não esperava. No seu melhor estilo “aqui mando eu”, cercou a escola com imenso aparato policial, sem antes tentar um diálogo com aqueles que deveriam ser o segmento de maior cuidado do governo, os principais protagonistas da nação paulista, aqueles com os quais o governo deveria compartilhar um projeto de vida, de cidadania, mas, omisso e cruel, não o faz.

Toda imprensa, livre ou não, acompanha e registra cada movimento ali realizado, já construíram a narrativa real da cena; em nenhum momento, nenhum diretor, supervisor, diretor regional ou secretário iniciou um processo de conversa. Atônitos, lá estão, paralisados, cumprindo com honestidade seus deploráveis papéis de parasitas, incapazes de serem iguais aos alunos e professores. Acham-se, em sua maioria, mais iguais que os outros.

Os educadores são os que podem iniciar um processo de diálogo de igual para igual – são os dois segmentos mais massacrados pela máquina estatal. Mas, em vez disso, foram apartados, caguetados e fichados pela burocracia da escola e permanentemente vigiados por fardados e apaisanados.

Até o momento, o autopropagado democrático secretário de educação não se deu ao trabalho de dialogar com os jovens, sequer elegeu alguém do governo que possa iniciar uma conversa.

Esse mesmo secretário disse, há alguns dias, em uma reunião da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, que era determinação da secretaria que toda diretoria regional dialogasse com APM, grêmios estudantis, professores e servidores antes de anunciar os remanejamentos da reorganização. Mentira! Isso não foi feito e a prova é o comportamento do secretário frente às 17 ocupações, em especial a escola Fernão Dias, que protestam e questionam essa maldita reorganização.

O cinismo do secretário e sua incapacidade de reconhecer movimentos democráticos são corrosivos, inflamáveis e explosivos. Hoje, são 17 escolas ocupadas legitimamente por aqueles que a frequentam. Amanhã, podem ser 30, 50, 100, e não terá aparato policial capaz de cumprir as limitadas e míopes liminares, embora legais.

O governo do estado tem que repensar sua decisão de dividir as escolas por ciclos. O povo não quer o fechamento de escolas, o povo sabe que a unidade escolar é, por si só, um símbolo civilizador em uma comunidade. Os estudantes não querem ser removidos como coisas. Em cada sala de aula, repousam histórias fantásticas de amizade, boa convivência, troca cultural e afetividade. Cada sala de aula tem sua própria lógica de compartilhar experiência e acumular conhecimento.

A insistência nesse plano criminoso de destruir a educação em São Paulo nos levará à barbárie. Não se pode defenestrar o construído com tanta dedicação, provocando um assassinato massivo de sonhos. O governador tem que suspender a reorganização e evitar uma trágica diáspora escolar. Junto com o farsesco e vacilante Plano Estadual de Educação apresentado pelo governo, a reorganização só trará tristeza, rupturas afetivas, aumento da evasão escolar, inchaço de salas de aula, fechamento de outras salas e a falência de centenas de unidades escolares por todo o estado.

A rede estadual de educação pública não será destruída impunemente. Com ou sem liminar, com ou sem diálogo, com ou sem policiais, nós, juntos com os estudantes e pais, não aceitaremos calados o arruinamento da escola pública. Não aceitaremos a barbárie como política de estado.

Dessa vez, quem representa e fala em nome da indignação não são os partidos de oposição, não são as centrais sindicais, não são os sindicatos, nem as tradicionais organizações estudantis. São os estudantes, de maneira autônoma, esses mesmos jovens cidadãos que convivem com o cinismo permanente de um governo que persegue e maltrata professor.

A liminar de reintegração, sabiamente suspensa pela justiça, é um equívoco na identificação da autoria da ocupação. O pedido do governo traz no bojo o DNA kafkaniano, pois elege a Apeoesp como bode expiatório a se enrolar em processos intermináveis, objetivando fritar politicamente a mais combativa organização sindical do estado de São Paulo. De quebra, o pedido comete uma injustiça política histórica, pois nega a tática de organização autônoma dos estudantes e não os reconhece como autores da ação política.

Na desesperada tentativa de achar culpados para seus próprios vacilos, o governo erra mais uma vez no cálculo político. Nós, a velha esquerda em sentido estrito, sindicatos, partidos, movimentos de organização centralizada e verticalizada, conseguimos ser apenas apoiadores desse movimento. Eles não nos reconhecem como possíveis interlocutores. Tanto é verdade que nenhum representante de partido, parlamento ou sindicato entrou na escola. Eles exigem a presença do secretário. Não reconhecer essa característica é um erro fatal do governo.

O juiz corretamente apontou que a questão é de disputa de uma política pública que seria imposta pelo estado e não se ouviu a comunidade escolar. Chama a atenção a manifestação do presidente do Condepe, Rildo Marques de Oliveira, que participou da audiência e denuncia que “os estudantes na sua legitimidade passam por uma pedagogia da ditadura civil no Estado. A educação paulista usa a repressão penal como forma de educar jovens que lutam por direitos”.

Fosse um governo minimamente sensível e democrático, leria essa realidade como uma coisa boa. Essa ocupação revela uma juventude saudável, ativista, entusiasmada e exemplar na coragem e no caráter.

A vigília permanente e o apoio em frente à escola foram garantidos por pais e alunos daquela e de outras escolas, artistas e cidadãos comuns que aderiram ao apoio e também militantes de sindicatos e partidos políticos de esquerda. Um fantástico sarau de poesias, rap e cantos manteve a vibração democrática e revolucionária da ocupação. Esse movimento deve ser observado com desprendimento e generosidade por parte dos mais experientes, sejam do governo ou das forças de oposição.

E perceptível certo niilismo e até nuances de negação total dos partidos e da política. Isso é perigoso, mas faz-se necessário reconhecer que essa ocupação, liderada por jovens de 16, 17 e 18 anos, foi taticamente brilhante e exitosa. Pautou o debate com muita clareza e segurança. Já cumpriu um papel fundamental e mexeu com as estruturas do governo e do estado.

A ocupação, cedo ou tarde, terá um desfecho. Acompanho, manifesto-me e trabalho para que ele não seja truculento, soberbo, muito menos violento. Seria uma injustiça esses meninos e meninas, que desafiaram o governo e deram uma aula pública de radicalidade participativa nas estruturas do estado de direito, serem penalizados judicial ou fisicamente.

A radicalidade política é saudável, a intransigência sectária muitas vezes gera intolerância e violência e só interessa àqueles acostumados a violentar o corpo e a alma dos filhos da classe trabalhadora.

Se o protesto contra a reorganização ganhar estofo de luta pela educação pública em todo o estado, é possível que seja a responsável pela queda da vestal de bom moço do imperador Geraldo. Mas ainda é cedo para diagnosticar o alcance e a capilaridade dessa rebeldia estudantil, se essa rebeldia está disposta e se organizar para o enfrentamento permanente, ou se manterá apenas importantes ações pontuais, que, sem saber onde quer chegar, terminam nelas mesmas. A ocupação emparedou o governo, mas ainda não garantiu o recuo na proposta de fechar escolas.

Se essa rebeldia reconhecer sua importância histórica e, mesmo mantendo-se independente e autônoma, consolidar apoios e alianças com o sindicato dos professores, organizações estudantis e os movimentos sociais, poderá ter ainda mais êxito na luta contra a reorganização e, por consequência, impor uma derrota política substancial ao forte e blindado reinado tucano. E nessa luta específica contra o fechamento de escolas, o protagonismo é deles, não é de mais ninguém. Sem a disposição dos estudantes não há aliança em torno de uma pauta estrategicamente mais ampla, capaz de demover o governo de sua, até agora, intransigente posição.

As ocupações são faíscas revolucionárias, desconfiadas de tudo que está posto, tudo que é hereditário. Cabe à esquerda apoiá-las, e não as disputar, assim como fomos apoiados em nossas brigadas estudantis de outrora. Tenhamos grandeza e humildade para percebê-los e reconhecê-los como bons e corajosos, como tantos outros de tantas outras gerações. Eles sentirão segurança e reconhecerão a importância do apoio recebido pelos mais diversos segmentos progressistas e se reconhecerão nesse processo histórico.

Viva a resistência estudantil secundarista!

João Paulo Rillo é deputado estadual pelo PT-SP

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