Balanço negativo do desempenho do PT nas eleições municipais no Brasil e, especificamente, em São Paulo, aponta para a necessidade de reconstrução democrática do partido, passando pela recomposição de forças da esquerda e pela formação política de novas lideranças

dscn0493A conjuntura política pós-eleições municipais e a construção da estratégia de atuação em defesa do SUS e da Seguridade Social, em contraposição ao governo Temer e sua base de sustentação em São Paulo, foram tema da reunião do Setorial Estadual de Saúde do PT, ocorrida neste sábado (08/10).

Participaram da apresentação do debate Vilma Bokani, coordenadora do Grupo de Opinião Pública da Fundação Perseu Abramo (FPA); Eduardo Tadeu, integrante do Projeto São Paulo da FPA; e Rodrigo Funchal, coordenador do GTE e membro da direção estadual do PT.

Vilma apresentou os resultados preliminares das eleições para o PT com base nos dados disponibilizados pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral), fazendo um comparativo com os pleitos eleitorais dos últimos 20 anos. Os resultados são preliminares porque até aquela data o TSE ainda não havia divulgado as totalizações por partido, mas ainda sim já demonstram um dos piores momentos da sigla no período.

Segundo a análise, em relação ao número de municípios disputados, o PT já começa o jogo derrotado uma vez que disputou somente a metade das prefeituras em relação ao pleito anterior (971 cidades disputadas em 2016 contra 1759 em 2012). No Brasil, o partido teve uma redução de mais da metade dos governos municipais (256 prefeitos eleitos em 2016 contra 639 em 2012). Os números não levam em consideração as prefeituras em que o PT ainda disputa o segundo turno no país. “É claro que cada um conhece a sua própria realidade. Acabamos de sair de um golpe, tivemos o selo de corrupção estampado pela ação da mídia, elementos que dão indícios do motivo para baixa adesão de candidaturas”, destaca Vilma. “Entretanto, não dá para ganhar se não jogar”, completa.

Ainda considerando o desempenho do partido em todo o Brasil, Vilma pondera que a taxa de sucesso não foi tão baixa quanto parece, atingindo 26,36%, sendo maior do que em 2004, quando a taxa de sucesso do partido foi de 22,54%, quando o PT estava à frente da presidência do país. A taxa de sucesso se refere ao percentual de prefeituras eleitas em relação ao número de município disputados.

dscn0668Já no Estado de São Paulo, a taxa de sucesso do partido remete a níveis de 20 anos atrás, quando a taxa foi de 7,23%. Em relação aos municípios disputados em São Paulo, o PT obteve vitória em apenas 8,51%, sendo que na eleição anterior, em 2012, a taxa de sucesso foi de 29,18%.

Considerando os 32,6 milhões de eleitores no Estado, o PT obteve apenas 1,7 milhão de votos, o que representa uma taxa de votação de 5,49%, bem abaixo dos 12,45% de votos obtidos em 1996. “Essa eleição é a consolidação do golpe”, anota a socióloga, ressaltando que essa força da votação do eleitorado em São Paulo vai favorecer especialmente o atual governador Geraldo Alckmin numa eleição futura.

“Os números são duros de olhar, e por isso precisam ser analisados com cuidado, mas o partido não conseguirá eleger governo daqui a dois anos se não conseguir ampliar esse eleitorado”, ressalta Vilma.

Independentemente da avaliação sobre os erros do PT, Eduardo Tadeu destacou o papel da mídia, que, aliada ao judiciário e às elites nacional e internacional na articulação do golpe, aproveitou os problemas da crise econômica para construir uma crise política. Para Tadeu, são duas as principais tarefas que se colocam diante da esquerda que ainda acredita na construção de um outro mundo possível. A primeira é atuar em direção da constituição de um grande movimento de massas, o quanto antes, para tentar minimizar o programa do golpe e barrando, ou pelo menos criando obstáculos para a volta de uma política neoliberal radical.

dscn0608“A segunda frente de atuação vai ao encontro da preservação da parte organizada da classe trabalhadora, a partir dos instrumentos que foram construídos nos últimos 40 anos de luta no Brasil e que hoje estão na berlinda”, salienta Tadeu, alertando para o perigo da criminalização dos movimentos sociais e da atuação dos sindicatos. “Essa conjuntura econômica vai mudar e precisamos ter nossas organizações preservadas para garantir nossa força no enfrentamento”, diz Tadeu.

Rodrigo Funchal concorda com a necessidade de reconstrução do partido, que deve se dar em várias frentes, mas ressalta como via principal para retomada do projeto a formação política. Ele observa que a derrota do PT foi essencialmente para os partidos de direita e de centro, pois os espaços perdidos não foram ocupados por outros representantes de esquerda como PSOL ou PCdoB, por exemplo.

“Foi uma tragédia anunciada, pois já havia uma sinalização desde 2013 que o vetor de força da esquerda brasileira mudava sua direção”, repara Funchal.

O coordenador do GTE lembra que, apesar de ter chegado à presidência ao vencer a eleição em 2002 e se mantido por lá até a última eleição presidencial, em nenhuma ocasião o PT obteve os votos necessários no primeiro turno, nem nunca elegeu sua base de sustentação na Câmara ou no Senado, tendo de lançar mão de governos de coalizão. “Nós vencemos em 2002 a partir de uma lógica de política de alianças e pagamos caro por isso, pois essa política teve um preço alto para o nosso projeto”, destaca. Na primeira metade do governo, a composição com os partidos pequenos culminou no mensalão. Na segunda, em composição com os grandes, culminou no golpe.

Para Funchal, o programa de reforma social instalado pelo partido também ficou aquém de uma verdadeira mudança, pois se criou uma nova classe trabalhadora, porém essa ascensão se deu mais pela via do consumo. De acordo com ele, o PT não conseguiu fazer a transformação social do ponto de vista político, por meio da formação.

dscn0699Funchal lembrou ainda ao grande quantidade de votos brancos e nulos e abstenções nesta eleição, que superam inclusive o número de votos recebidos pelo candidato eleito na capital paulista. “A criminalização da política também é uma estratégia do capitalismo para substituir o Estado pelo mercado”, finaliza.

O deputado estadual Carlos Neder, coordenador do Setorial, destacou a importância da realização do balanço. “É necessário fazer essa avaliação para entendemos até que ponto a derrota do PT nas urnas foi meramente eleitoral, ou se foi igualmente uma derrota política, e o que isso vai representar para o futuro do partido”, disse. “Tomamos um tranco tão forte que estamos autorizados a dizer o que precisa ser dito. E esse debate é importante para promover a transformação que queremos no PT e na sociedade”, acrescenta Neder.

Na segunda parte do debate, também estiveram presentes o secretário municipal de Saúde de São Paulo, Alexandre Padilha; o coordenador do Setorial Nacional de Saúde do PT, Ricardo Menezes; e as integrantes dos movimentos sindical e popular de Saúde, respectivamente, Maria Araci dos Santos e Francisca Ivaneide de Carvalho.

A próxima reunião do Setorial ocorrerá no dia 10 de dezembro e terá como pauta principal o debate sobre nossa oposição ao governo Temer e aos governos e partidos que lhes dão sustentação em São Paulo.

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