Debate abordou a revisão do plano diretor sob a perspectiva das reivindicações das ruas

O terceiro debate temático com vereadores da capital, promovido pelo mandato do deputado Carlos Neder, contou com a presença do vereador Nabil Bonduki e de dezenas de militantes petistas da cidade.

A discussão, entretanto, não se restringiu à revisão do Plano Diretor, tema principal da noite de 17 de junho, e acabou refletindo a apreensão e as expectativas geradas pelos protestos que tomavam as ruas naquela segunda-feira.

Ao abrir o debate, Neder destacou a necessidade de disputar na opinião pública o entendimento do que está ocorrendo, discutindo, inclusive, a ideia do passe livre.

“Isso muda a forma de encarar o movimento”, afirmou. O deputado lembrou ainda que há tempos se questiona a baixa participação dos jovens na política, fato que contrasta com o ativismo demonstrado pelos últimos acontecimentos.

“Se não soubermos mudar a linguagem do partido e de nossas lideranças políticas, vamos nos confundir com esses que querem reprimir jovens”, advertiu Neder.

Novo momento na política

O principal convidado, vereador Nabil Bonduki, chegou depois de iniciado o encontro, realizado no escritório político de Neder, justamente porque participou de passeata, realizada na região de Pinheiros, na zona oeste.

Para o vereador, os acontecimentos das ruas traduzem um novo momento na política. “Está acontecendo uma coisa muito significativa na cidade e não podemos ignorar”, ressaltou.

Nabil discorreu sobre o conjunto de expectativas que foram atendidas pelos governos Lula e Dilma, relacionadas a bandeiras de luta que, na área do urbanismo, se traduzem nas políticas de zoneamento, mobilidade, resíduos e criação do fundo do sistema de habitação de interesse social.

O parlamentar ponderou, contudo, que essas mudanças, assim como o acesso à universidade e o aumento de renda da população, também criam novas expectativas.

“O PT vem caindo na vala comum. E a juventude está sensibilizada por mudanças, mas não sabe bem aonde ir”, argumentou Nabil.

O vereador lembrou que os protestos foram motivados diretamente pelo aumento da tarifa dos transportes coletivos, mas se desdobraram na luta pelo direito de expressão e no questionamento em relação ao que se investiu na Copa e se deixou de investir em saúde e educação.

“Mas a questão em jogo é o modelo de desenvolvimento”, destacou Nabil. “O governo federal ou perdeu o rumo ou optou por um modelo de desenvolvimento que deu peso às grandes empreiteiras e grupos econômicos”, completou.

Os demais participantes do encontro também deixaram sua interpretação acerca da retomada das manifestações de rua.

A pedagoga Terezinha Pinto ressaltou a importância de não se olhar os movimentos como inimigos. “Ficamos tanto tempo sem participar de nada, em São Paulo, que agora ‘destampou’”, disse. “Estamos perdendo espaço e deixando a mídia pautar as demandas. Precisamos saber usar as redes sociais para também formar opinião”, afirmou.

No mesmo sentido, o educador Camilo José dos Santos Neto demonstrou apreensão diante da possibilidade de que os jovens que participaram dos protestos venham a ser cooptados pela direita.

“Temos de ficar atentos, pois essa juventude não sabe aonde ir. Temos de ajudá-los a se organizar”, pontuou.
A historiadora Vera Lúcia Figueiredo também lembrou da movimentação da direita, que se manifesta de diversas formas e tenta aproximar-se de iniciativas como o protesto iniciado pela juventude.

“O discurso de que a política não presta é o discurso da direita na mídia”, frisou. “Hoje há uma articulação de direita em São Paulo, que é forte”, concluiu Vera.

Plano Diretor

A discussão temática sobre o Plano Diretor teve importante participação da geógrafa e pesquisadora do IPT, Ros Mari Zenha. Ela relatou a retomada da discussão sobre o tema, em 2013, com a participação decisiva do Executivo municipal, com desdobramentos em diversas reuniões temáticas, por segmentos.

“Em junho e julho, vai se partir para as oficinas nas subprefeituras. Estão marcadas reuniões em todas elas para que haja discussão de proposições a serem feitas”, ressaltou Ros Mari.

Uma das etapas mais importantes da discussão, conforme assinalou Ros Mari, tem relação com as devolutivas, que irão ocorrer entre agosto e setembro. “Isso significa mostrar para a população quais sugestões foram incorporadas, o que não foi contemplado e porque não foi”, explicou a geógrafa.

Ros Mari também se queixou sobre a forma que está sendo conduzida a discussão relativa à Operação Urbana Água Branca, na Câmara Municipal. Segundo ela, várias entidades da sociedade civil já entraram na Justiça para tentar suspender a tramitação do projeto, que estaria tramitando na Câmara sem a transparência necessária.

Francisca Ivaneide Carvalho, que milita na área da saúde, destacou que o debate sobre o plano diretor não se limita à habitação. Criticou a realização da última Conferência Municipal de Habitação, na qual diferentes lideranças do movimento disputaram acerca de quem levaria mais pessoas ao evento.

“Discussão política, não teve. Essa forma de usar as pessoas ilustra muito bem a indignação que se reflete na juventude”, frisou Ivaneide.

O vereador Nabil Bonduki pontuou ainda que a questão da redução da desigualdade é um ponto chave para a discussão do plano diretor. Uma das maneiras de obtê-la, assevera o parlamentar, se dá por meio da oferta de investimentos na periferia e no estímulo à habitação na região central.

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