Abrem-se as urnas, fecham-se as urnas e o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2015 tem um vencedor. Mas antes de anunciá-lo, caro leitor, cara leitora, gostaria de falar das mulheres indicadas ao longo do ano. Um amigo sugeriu que o Prêmio fosse dado às médicas pernambucanas que alertaram para a epidemia de microcefalia no Nordeste. Outros indicaram a Maria do Socorro de Souza, que ocupou até dezembro a presidência do Conselho Nacional de Saúde e coordenou a realização da 15ª Conferência Nacional de Saúde, um amplo e complexo processo de participação social em saúde, sem paralelo no mundo, que mobilizou, diretamente, mais de um milhão de pessoas em todo o Brasil, em quase 4 mil conferências municipais e estaduais de saúde, e conferências livres, em defesa do SUS e do direito à saúde. Socorro garantiu a realização da etapa nacional, em dezembro, em Brasília, enfrentando as extremas direita e esquerda que tentaram inviabilizar a conferência. No segundo dia do evento, por dificuldades logísticas, em determinado momento faltaram talheres, pratos e comida no restaurante que serviu diariamente almoço e jantar para mais de 4 mil pessoas. Formaram-se várias longas filas. E a Maria do Socorro entrou em uma dessas filas. Quando chegaram talheres, pratos e alguma comida, a fome levou participantes a se engalfinharem para disputar alguns poucos pratos, talheres e comida. Instada a furar a fila, valendo-se da prerrogativa de presidir a conferência, recusou-se e sorriu, calma. Esperou pacientemente – e certamente com fome – que tudo se normalizasse e serviu-se como todos os demais. Com o gesto, calou imediatamente alguns raivosos delegados que, valendo-se do despreparo da empresa contratada, gritavam em megafones, furiosos contra tudo e contra todos. Isto, não me contaram. Eu vi, pois estava ao lado da Socorro na fila. Respeitar filas, no Brasil, abrindo mão de algum poder para furá-las é gesto pedagógico, incomum e de profundo respeito à cidadania. Dela, naquele momento, eu não esperava outra atitude. E gostei do que presenciei. Bem que merecia o Prêmio essa mulher especial, essa leoa “com sorriso de Monalisa”, como disse um amigo.
Outra mulher indicada foi a Rozangela Camapum, que assumiu a Coordenação de Saúde Bucal do Ministério da Saúde quando ainda era ministro o Arthur Chioro. Foi uma gestão breve essa da Rozangela, mas de efeitos intensos e longos, pois em alguns meses ela resolveu pendências que se arrastavam durante todo o governo Dilma. Experiente e do ramo, manteve o apoio às importantes atividades da área e soube desatar nós, reorientando várias frentes de trabalho do programa Brasil Sorridente. Porém a miopia do atual ministro da Saúde levou-o a atender amigos do Congresso Nacional. O custo foi exonerar Rozangela. Mas a demissão tornou-a maior ainda. Em dezembro, a Confederação Nacional dos Trabalhadores Liberais Universitários Regulamentados (CNTU) conferiu-lhe o prêmio Personalidade da Odontologia do Ano de 2015.
Muitos amigos e amigas escolheram o Chico Buarque, “porque está cada vez melhor, conseguindo agregar ainda mais qualidade à obra artística, desde que FHC declarou que se tratava de “artista decadente” (um amigo corrigiu-me: FHC teria dito “repetitivo” e não “decadente”). Mas repetitiva mesmo é a direita reacionária brasileira: quase meio século depois que covardes armados atacaram artistas em pleno trabalho no teatro, agredindo-os por encenarem “Roda Viva”, Chico foi uma vez mais alvo de agressões tão covardes quanto idiotas, sendo abordado na rua, em dezembro, por gente cretina que pensa ter o direito de questioná-lo sobre suas opções político-partidárias. É um tipo de gente que o povo brasileiro conhece bem, desses que pretendem ter o monopólio da razão e da política. Chico Buarque, como é amplamente conhecido, é antes de tudo um cidadão brasileiro, profissional e artisticamente muito bem-sucedido que, recusando-se à indiferença e ao merecido conforto a que tem direito, tem vindo a público em defesa da democracia e do Estado Democrático de Direito. Xingado e ofendido respondeu à altura, valendo-se do título de uma de suas canções: “Vai trabalhar, vagabundo!”. Uma amiga comentou que em “momento difícil, todo mundo encolhido, com vergonha e com medo – do que ninguém sabe, mas de quem todos sabemos –, a voz presa na garganta, envergonhada. E ele aparece com aquele sorrisão, ao lado do MST e diz: ‘Eu sou contra o golpe! Eu apoio o governo que o povo escolheu. Vamos respeitar as urnas e a vontade do povo!’”. Observei que Chico se beneficiou, recentemente, do talento de algum colega da área de odontologia estética. Seu sorriso, pelo conjunto dos dentes agora bem alinhados e pela coerência de seguir sendo o Chico de sempre, teve merecidamente muitos votos em 2015.
Outro nome cogitado para o Prêmio de 2015 foi o Sebastião Salgado, qualificado por uma amiga como “uma pessoa luminosa”. Salgado é um fotógrafo cuja característica estética mais marcante é, contrariando a recomendação técnica de fotografarmos sempre com a luz a favor, produzir fotos belíssimas fotografando justamente contra a luz. Mas seu nome surgiu menos por seu talento, que se manifesta em obra vasta e conhecida, e profissionalismo (que pode ser conferido nos filmes ‘Revelando Sebastião Salgado’ e ‘Sal da Terra’), e mais por seu compromisso ambiental. Sebastião Salgado criou em 1998 o Instituto Terra com o objetivo de “devolver à natureza o que décadas de degradação ambiental destruiu” na cidade mineira de Aimorés buscando o desenvolvimento sustentável do Vale do Rio Doce. Esse projeto, com foco no reflorestamento da fazenda que herdou do pai, mas com presença e atuação em todo o Vale do Rio Doce, foi também atingido pelo rompimento da barragem em Mariana. Como cidadão, Salgado acompanhou os fatos com o mesmo desespero de todos nós, lamentando as mortes humanas, de bichos e do rio Doce. Importando-se, pôs sobre a mesa um plano de recuperação da região. “Vamos recuperar tudo, está aqui o que devemos fazer!” E indicou a fonte de financiamento. Quem é “o responsável pela tragédia tem de pagar a conta”. Uma amiga mencionou seu comentário de que “mais do que nunca, sinto que a raça humana é somente uma. Há diferenças de cores, línguas, culturas e oportunidades, mas os sentimentos e reações das pessoas são semelhantes. Pessoas fogem das guerras para escapar da morte, migram para melhorar sua sorte, constroem novas vidas em terras estrangeiras, adaptam-se a situações extremas…”. Para ela o bom do Sebastião é que “nos leva a olhar sempre para frente, procurando o melhor do mundo e de nós mesmos”. Por seu compromisso ético com a vida, sob todas as formas, Sebastião Salgado recebeu muitos votos em 2015.
Sim, caro leitor, cara leitora, ao longo do ano chegaram-me indicações para vários sorrisos, dentre os quais o do Michel Temer (rechaçada com veemência por uma amiga que dedicou-lhe, em represália, os versos da Cecília Meireles no “Cancioneiro da Inconfidência”: “pelos caminhos do mundo/nenhum destino se perde/há os grandes sonhos dos homens,/e a força surda dos vermes”), o Eduardo Cunha (“o sorriso golpista”, “irônico, cínico, merecia um anti-prêmio”, “esse não merece nem a sua ironia”), o juiz Moro (“representa a vontade do povo brasileiro, de desmontar esquemas de corrupção que vem se perpetuando há décadas – ou seriam séculos?”, embora tenha sido, para mim, excessivamente seletivo até agora), o deputado Jean Wyllys (“luta pelos princípios humanos e democráticos mais básicos, um guerreiro forte, que parece saber colocar-se sempre do lado certo das lutas. E jovem, com um futuro promissor pela frente”), o técnico Tite (“o melhor treinador do mundo!” – voto de um amigo corintiano, claro), o goleiro Fernando Prass (“deu diversos motivos para o ‘meu sorriso’” – voto de um amigo palmeirense, claro).
Uma amiga propôs que fosse criada a categoria “sorriso coletivo” e outro propôs a categoria “sorriso de personagem”. O coletivo deveria ser dado para o movimento secundarista paulista, que “ocupou escolas, tomou corpo, ocupou mais escolas, ganhou a atenção e a simpatia geral, colocou a educação na pauta dos nossos dias, enfrentou a polícia! Finalmente, mandou a popularidade do governador – que se mantinha alta até com falta d’água – ladeira abaixo. Foi lindo! Glorioso! No linguajar deles: ‘Governador, deu ruim’.” E declarou seu voto “para essa meninada linda, destemida, de luta. Um viva à desobediência civil!”.
O “sorriso de personagem” deveria ir para a Val, que ganhou vida na pele da Regina Casé no filme “Que horas ela volta?”, da Anna Muylaert, por “aquele sorriso que se mistura com choro, ao saber dos 68 pontos de sua filha no vestibular, símbolo, para mim, da resistência, de ternura, simplicidade e alegria genuína clamando por justiça. Sorriso fácil, justo, sincero, o sorriso possível para uma parte da população brasileira que luta para ser gente. Sorriso de quem compreende o sentido da justiça, ao bradar sua carta de alforria e entender que para ser feliz e continuar sorrindo é preciso liberdade”.
Mas, caro leitor, cara leitora, quem levou o Prêmio Meu Sorriso do Ano de 2015, de goleada, foi um argentino. Não, não foi o Messi. Goleada é modo de dizer. O Messi já ganhou – com justiça, registre-se – aquele outro prêmio e está muito bom. Os votos vieram, em maior parte, para o Sebastião Salgado, o Chico Buarque e ele, o “outro Chico”. Sim, o Papa Francisco recebeu mais de 50% dos votos. Ganhou em primeiro turno, como se poderia dizer. Recebeu voto de amiga comunista, de amigo gay, de amigos e amigas “em geral”… Disseram-me que ele deveria ser o vencedor, pois além de atender ao pedido do “Vai pra Cuba!”, não parou de surpreender o mundo a cada manifestação oficial. Seja ao falar da família, seja ao se referir ao Estado Islâmico, foi ganhando admiradores a cada dia em todo o planeta. O mundo estava precisando de um Papa como este. Com todo respeito, ninguém merecia essa turma recente de papas, cada um mais rançoso que o outro… Assim, para 2015, um ano que os amigos e amigas que me ajudam a eleger o Prêmio classificaram de “tenebroso, de muitas lágrimas, dúvidas, refugiados, conflitos que se eternizam, ódio, muito ódio, em que se abriu no Brasil a jaula do fascismo, tanta derrota, tanto retrocesso”, dentre outros epítetos, a escolha do Papa Chico para o prêmio é uma escolha justa, exata, no ponto, necessária. Para uma amiga, nesse 2015 “os sorrisos ficaram escassos e, quando apareceram, foram sorrisos fortuitos, de escárnio ou de desgosto…como quando a gente sorri porque chorar dá mais trabalho e não resolve”. Outra pediu que “os bons ventos que levaram esse Chico até o Vaticano lufem por aqui levando para longe toda a “basura” [‘lixo’, em espanhol] e nos traga novos ares! Que é disso que estamos precisados por aqui!”. Então, com um ano assim tão problemático, só mesmo um Papa como esse Chico para aliviar um pouco. Desculpa, Papa, este é um Prêmio que é quase um pedido de socorro. Mas vale. Peço que o aceite. E que siga cuidando “das coisas lá do céu”, mas também daqui da terra, porque por aqui a coisa anda meio infernal.
O ano foi tão ruim que, admito, me abateu o ânimo. Estava pensando em fazer desta a última coluna e encerrar o Prêmio Meu Sorriso do Ano, pois a cada ano cada vez menos amigos se interessam e votam – penso até que os(as) aborreço com meus pedidos de participação. Foi então que me mandaram “um grande abraço e parabéns por manter uma tradição natalina útil e interessante” e uma amiga escreveu “Olá Capel, você virou um marcador do tempo. Quando li, pensei: ‘Mas, de novo?!’… Parece que votei faz pouco tempo”. Então, caro leitor, cara leitora, seguirei aborrecendo-os(as), pois marcador do tempo que se preza tem de dar as caras todos os anos. Neste caso, cara com sorriso.

Artigo publicado no Jornal Odonto em 14/01/2016

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